quarta-feira, 24 de abril de 2013

Por um fio - Drauzio Varella




Drauzio Varella, médico oncologista, ficou famoso e reconhecido por “Estação Carandiru”, livro com grande repercussão nacional e que se tornou filme nas mãos do diretor Hector Babenco. E por sinal, e infelizmente, a versão cinematográfica não condisse com a qualidade da história pela qual se inspirou.

Posteriormente o médico paulista passou a ter quadros sucessivos sobre saúde pública no semanal televisivo Fantástico, da Rede Globo. Ultimamente tenho lido algumas críticas ao médico-escritor, e sua figura-literatura de alcance extremamente popular, mais pelo que se refere à sua imagem na telinha. O problema é que no Brasil ninguém pode ser popular, na verdade o termo “popular” causa ojeriza a quase todos que se considerem um pouco mais letrados ou que se classifiquem como “formadores de opinião”.

De qualquer forma Drauzio é um observador sensível e atento, e sua curta obra literária demonstra a busca por uma humanização em uma área onde, de forma inusitada e espantosa, há uma excedente mecanização de procedimentos. Qual é esta especialidade? A medicina, especialmente a clínica. Talvez haja uma explicação história e contextual para uma desumanização persistente na clínica médica em geral e especialmente em nosso país.
Primeiramente a medicina se associou à consagração da ciência no período que denominamos como: modernidade. Onde na passagem do século XIX para o século XX, as ciências alcançaram o status de objeto mais próximo da verdade que o homem poderia chegar. E nesta premissa científica, impregnada da filosofia cartesiana, os pacientes são meros objetos para o diagnóstico de seus males, e os médicos são os seres-sapiência que poderão aferir os medicamentos e procedimentos necessários para poder proporcionar a cura àquele(a)s obje… quer dizer pacient… quer dizer… pessoas. Outro fator primordial para essa desumanização é o caos do serviço público do sistema único de saúde brasileiro (SUS), e de quase todos os países pobres da América Latina, onde pessoas e gado se confundem, (no Brasil a saúde do gado bovino é melhor do que a saúde da população em geral) e onde médicos atuam em condições semelhantes a estados de sítio ou guerra. Humanizar o atendimento aos pacientes nestas condições deve ser realmente difícil, quase impossível, mas a tentativa dos profissionais de saúde pública também deve ser imprescindível e necessária. Um juramento foi feito antes de se jogar os canudos ao alto nas comemorações de formaturas. Assunto que retornará logo abaixo.

Os livros de Varella indicam a tendência, observando as práticas médicas de meados do século XX até a virada do século XXI, a uma re-humanização da clínica médica. E qual melhor tema para tratar dessa reaproximação da “ciência que salva vidas” para com a vida do que a… morte. Sim. A morte é o principal tema abordado pelo médico-autor desde seu primeiro livro, “Estação Carandiru”. O importante é notar como a morte é enxergada neste processo e nas observações feitas em sua obra.

Em “Estação Carandiru” o primeiro movimento é o de aproximação-estranhamento às pessoas tidas como não-humanas, animais que perderam sua capacidade de viver em sociedade e que agora devem viver enjaulados, sobrevivendo como selvagens. E é diante deste quadro que surge a primeira grande questão ética levantada por Drauzio. “Por que eu deveria me preocupar com a vida e a saúde de assassinos, estupradores, ladrões e traficantes?”. A primeira resposta para esse dilema vem na forma do pacto firmado ao se levantar o braço no dia da formatura e jurar defender sua profissão com a maior dignidade possível. A segunda resposta, e talvez a que seria a mais simples, mas não é, é a percepção de que aquelas pessoas são realmente humanas, e que em todas as nossas barbáries sempre existirá a possibilidade do erro, e do perdão. E que naquele momento, em pleno Carandiru, o médico-humano não deveria olhar para a ficha-criminoso e sim para o ser-humano-enfermo. Essa é a preocupação primordial que Varella nos descreve em sua experiência no então maior complexo prisional do país.

A morte relatada neste momento é quase que inevitável (Mas a morte não é inevitável mesmo?). No Carandiru a morte ou viria pela AIDS, pelas drogas, pelas doenças agravadas pelos dois fatores anteriormente citados, pelo assassinato encomendado, pelo assassinato por dívida ou pelo assassinato pelas mãos do Estado. Lembremos que Drauzio conheceu parte dos 111 detentos mortos pela polícia militar de São Paulo, em 1992. E foi através da morte-barbárie demonstrada no Carandiru, que o autor tentou mostrar o quanto humanos ainda somos, principalmente em nossas fraquezas e misérias, mas também nas vivas e verdadeiras histórias dos detentos e amigos que fez na Casa de Detenção.

A morte apresentada em “Por um fio” é diferente. E ainda continua inevitável. É a morte marcada e trazida pela doença, sem o pendor da justiça ou da injustiça. É a morte e a sua possibilidade real para ricos e pobres, assistidos ou desassistidos.

Neste livro o médico revela as histórias dos pacientes diagnosticados com câncer, quase todos em situações graves e quase sempre irreversíveis. Esta morte próxima apresentada nas histórias descritas por Drauzio mostra que diferente das mortes violentas, a possibilidade de perder a vida lentamente pode trazer novas perspectivas para a… vida! Sim, vida e morte caminhando juntas, como sempre foi e sempre será. É que às vezes nos esquecemos disso.

Em “Por um fio” a real sensação de que a linha final chegou traz uma interessante sensação. A morte para os jovens e para os vivos vem sempre carregada com uma roupa quase sempre parecida. A pena. A piedade. A vitimização. O preconceito com o defunto ambulante.

A morte, encarada pelos pacientes nas histórias de vida relatadas por Varella, é mostrada como algo que pode ser uma passagem, um marco, uma chegada, apesar de não deixar de anunciar o seu eterno mistério. Mas essas histórias também não deixam de revelar as dores, os medos, as perdas, as separações. Não há outra saída. A morte é uma ruptura sem volta, ainda mais segundo nossos fortes preceitos materialistas. Mas mesmo assim é descrita nos relatos como algo que pode ser percebido como uma antecipação inevitável, porém sem ser transformado em uma tragédia monstruosa. A morte é a tragédia do desconhecido, mas pode ser vivificada com imensa dignidade.

“Por um fio” mantém a mesma estrutura de “Estação Carandiru”: Uma introdução da experiência do autor e de qual “lugar” ele está falando. Posteriormente temos pequenas e médias histórias narradas em primeira pessoa, onde o narrador relata as histórias de seus pacientes com suas emoções e ponto de vista pessoal. Em alguns momentos essas histórias se entrelaçam e dialogam, sempre mantendo sua temática principal, o exaurir da vida, como fio condutor das emoções e sentimentos.

E novamente a grande questão de Drauzio retorna. Qual é o papel da medicina? Qual é a função do médico junto a seu paciente? Manter a vida a qualquer custo? Ou identificar as necessidades do paciente/agente e descobrir com ele quais são suas expectativas e seus desejos para atacar/amenizar seu mal? O médico aponta a segunda opção como a escolhida por ele e demonstra que mais do que simplesmente salvar vidas, a medicina possui outra característica primordial, que é a de amenizar e diminuir a dor das pessoas. 

E é essa a grande questão que parece perpassar a obra do médico-homem Drauzio Varella.

A grande prova do que digo e encerro, neste momento, é o emocionante relato final e familiar dado pelo autor no último capítulo de “Por um fio”.

REFERENCIAS: VINICIUS SILVA

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